Sêco de raiva, coloco no colo caviar e doces
Tudo quanto nos rodeia e possui um sopro de vida tem um começo, um período mais ou menos longo de existência e um termo no final desse percurso. É um ciclo de vida numa ordem natural das coisas.
Aceitar isto é ter a humildade que nos dá a contemplação da morte e de outras pequenas representações. Só que a nossa é infelizmente uma sociedade que não gosta de falar da morte. Não vá o diabo ouvir…
À procura de outras desordens (pesquisava O Tambor, de Volker Schlöndorff, 1979) fui dar a um Blog argentino (se há uma nacionalidade para Blogs) onde descobri a primeira curta-metragem do espanhol Àlex Pastor. Chama-se La Ruta Natural .
La ruta natural é um palíndromo. E a palavra é tão estranha que o meu Word se apressa a sublinhá-la, o idiota. Por exemplo, cada Ana é um palíndromo, ou seja, é uma palavra, um número ou uma frase que pode ser lida às direitas como às avessas: Ana-anA; 2002-2002; somos-somos; La ruta natural-la ruta natural. Espantoso. E o título deste "post" dá...
Agora o filme:
Um estranho acidente coloca o narrador, divaD, entre a vida e a morte. Nesse limbo, na ânsia de compreender, de se lembrar, tenta percorrer a sua memória como espectador do seu próprio filme. E descobre que se o milagre da vida é o homem nascer entre sangue e dor, isso significa também que só a guerra constrói…
Revê momentos da sua vida passada e dá-lhes talvez outro sentido. Assiste ao nascimento do filho siuL, ao casamento com aruaL. Vê quando se despede de siuL através do vidro da maternidade e os médicos que o levam para sempre. E aruaL, que reage borrando as paredes do quarto da criança, desfazendo-se das roupinhas de bebé. Até que, na brancura de um hospital, os médicos (vestidos de branco) pretendem levar também divaD. É quando se dá o suspenso momento em que tudo pára, sobre um ténue fio de vida, se sustém o fôlego – antes de o entregar.
E divaD que sonhava com um mundo ao contrário, em voltar atrás. Mas sabia que não era possível: “desaparecerei sem deixar rasto. A minha existência desvanecerá com as minhas recordações”, conclui…
O filme tem a força da sua concisão. Pega no extremo de uma vida e percorre-a ao invés, procurando-lhe um sentido em sentido contrário.
Belíssima curta-metragem de Àlex Pastor, que eu não sei dizer em palavras. Não me leiam mas, por favor, dêem-se ao luxo de a ver:
la ruta natural




