ILUSÕES - ÓPTIMAS

Da ILUSÃO à INTERVENÇÃO não vai um passe de mágica... é uma questão de blog.

26 setembro 2006

Grito opaco (2)


Se calhar tem um espinho cravado na pata, sugeriu alguém entre circunspecto e optimista. Se calhar quer é uma boa bordoada, rematou um pândego. Um senhor, aproveitando um momento mais calmo, aninhou-se junto do animal e, lentamente, foi aproximando uma mão. Mas antes de tocar no dorso húmido teve de a retirar rapidamente para não ser mordido.
Porra, deixem-na lá, dizia-se. A bicha lançara-se de novo em perseguição contida, perpetuado a algazarra, enquanto que o acaso das suas investidas a cingia cada vez mais ao tronco da árvore. À medida que corria em círculos a trela ia encurtando, aproximando-a cada vez mais do centro da circunferência, limitando-lhe os movimentos e tornando a sua raiva altiva cada vez mais oprimida, pequena e ridícula. Esta humilhação entristeceu-me.
É seu o cão? perguntaram-me. Olhei a bicha, fingindo que não ouvia, pensando em toda aquela fúria uma vez solta. Um ser encurralado nunca é bonito de se ver. Não, não é meu, disse. Ao dizê-lo senti que a entregava.


Como me olhavam aproximei-me um pouco. Todo o meu esforço era em conseguir levar no olhar a paz com que queria inundá-la. Ia estender a mão, tocar-lhe na cabeça, apaziguá-la. Nos olhos procurei reconhecer algo que compreendesse, algo antigo, mas nada vi senão o negrume que não entendi. Tinha de confiar nela. Queria mesmo tocar-lhe, por isso olhei-a bem. Ela acalmou-se. Os olhos, eu já não sabia se eram os mesmos de há instantes. Quase lhe toquei.
Mas não pude. Recolhi a mão, levantei-me a pensar que era tarde e que o dia podia ter sido bem melhor.

1 Comments:

Blogger Ilusões-Óptimas said...

Foram dois ou três exorcismos que escrevi, António. Um grito que não se ouve, no fundo, tanto pode ser por escassez como por excesso de silêncio.

Em relação aos comentários, não me preocupam muito, ou pelo menos não tanto quanto o deixar de escrever quando a necessidade se impõe. Faz-me bem, este Blog. Enquanto isso acontecer por cá andarei.

Um abraço

(Ah. Já sabes que o grito de que falo não é meu.)

21 outubro, 2006 15:46  

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