Grito opaco (1)
Aproximei-me porque ouvi latir ao longe. Quando cheguei, havia um grupo de pessoas em redor dela, presa a uma árvore por uma trela como se fosse um bicho ruim. Ladrava, ladrava, e a corrida com que perseguia todos em volta de si cingia-a em volta do tronco, encurtando-lhe os passos. Do fundo das goelas, com uma raiva maior que ela, bradava a bicha como se guardasse as portas do inferno. Os latidos ecoavam-me no cérebro como se lá tivessem nascido.
Que tem ela? perguntei. Não sabiam. Tinham tentado chegar perto, para ver, mas não deixava. Os bons e os maus eram mantidos à distância. Músculos tensos, corpo oblíquo, oferecia-se voluntária a uma contenda cujas razões ninguém parecia conhecer.

Vendo um fulano ameaçá-la, perguntei se lhe tinham feito mal. Disseram-me que não lhes parecia. Ou talvez os miúdos, talvez nem isso.
Ali, em volta da bicha, as pessoas olhavam-na sem a ver, alheados e confusos nesta desordem de final de tarde. O dia apagava-se e pelas janelas dos prédios em redor adivinhava-se o reconforto de um odor a fritos que amanhã não comeríamos porque faz mal. O trabalho ficava para trás, na boca do metro, e uma brisa tirava-nos dos bolsos as mãos para compor o cabelo. A cadela, ali na praça, não tinha sentido.

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