Grito opaco (2)
Porra, deixem-na lá, dizia-se. A bicha lançara-se de novo em perseguição contida, perpetuado a algazarra, enquanto que o acaso das suas investidas a cingia cada vez mais ao tronco da árvore. À medida que corria em círculos a trela ia encurtando, aproximando-a cada vez mais do centro da circunferência, limitando-lhe os movimentos e tornando a sua raiva altiva cada vez mais oprimida, pequena e ridícula. Esta humilhação entristeceu-me.
É seu o cão? perguntaram-me. Olhei a bicha, fingindo que não ouvia, pensando em toda aquela fúria uma vez solta. Um ser encurralado nunca é bonito de se ver. Não, não é meu, disse. Ao dizê-lo senti que a entregava.

Como me olhavam aproximei-me um pouco. Todo o meu esforço era em conseguir levar no olhar a paz com que queria inundá-la. Ia estender a mão, tocar-lhe na cabeça, apaziguá-la. Nos olhos procurei reconhecer algo que compreendesse, algo antigo, mas nada vi senão o negrume que não entendi. Tinha de confiar nela. Queria mesmo tocar-lhe, por isso olhei-a bem. Ela acalmou-se. Os olhos, eu já não sabia se eram os mesmos de há instantes. Quase lhe toquei.

