ILUSÕES - ÓPTIMAS

Da ILUSÃO à INTERVENÇÃO não vai um passe de mágica... é uma questão de blog.

06 dezembro 2006

Moral da história...


... fica sempre qualquer coisa no fundo.

19 novembro 2006

Hoje recebo eu



Às segundas, quartas e sextas é a minha vez de receber. Nos outros dias devo esperar que o telefone toque. Às segundas, quartas e sextas sou eu a pegar no aparelho e a ligar às amigas. O telefone toca e toca, serpenteando corredores até ao quintal. Nas paredes as fendas suspendem o passo do seu lagartear enquanto que os retratos se entreolham sem falar.
Quando eu era miúda, o papá e a mamã proibiam-me de responder quando batiam à porta. Ficávamos em silêncio os três, quietos, os olhos arregalados a escutarem. Lá fora, começavam sempre com o “está aí alguém?”, pouco depois vinha o “eu sei que estão aí dentro, abram” até que por fim chegávamos ao “diabo que vos carregue.” E iam-se. Sempre.
O mundo sabe ser bem cruel mesmo através de uma porta. Mas o vidro baço esconde-nos, e muito embora digam que nos vêm eu sei que não é verdade, que fingem, mentem ou enganam-se. Por isso sempre gostei de ser eu a convidar, de telefonar para que venham que desta vez prometo abrir.
Às segundas, quartas e sextas recebo eu.

05 outubro 2006

Homem pelo cano

Helder Rodrigues

26 setembro 2006

Grito opaco (2)


Se calhar tem um espinho cravado na pata, sugeriu alguém entre circunspecto e optimista. Se calhar quer é uma boa bordoada, rematou um pândego. Um senhor, aproveitando um momento mais calmo, aninhou-se junto do animal e, lentamente, foi aproximando uma mão. Mas antes de tocar no dorso húmido teve de a retirar rapidamente para não ser mordido.
Porra, deixem-na lá, dizia-se. A bicha lançara-se de novo em perseguição contida, perpetuado a algazarra, enquanto que o acaso das suas investidas a cingia cada vez mais ao tronco da árvore. À medida que corria em círculos a trela ia encurtando, aproximando-a cada vez mais do centro da circunferência, limitando-lhe os movimentos e tornando a sua raiva altiva cada vez mais oprimida, pequena e ridícula. Esta humilhação entristeceu-me.
É seu o cão? perguntaram-me. Olhei a bicha, fingindo que não ouvia, pensando em toda aquela fúria uma vez solta. Um ser encurralado nunca é bonito de se ver. Não, não é meu, disse. Ao dizê-lo senti que a entregava.


Como me olhavam aproximei-me um pouco. Todo o meu esforço era em conseguir levar no olhar a paz com que queria inundá-la. Ia estender a mão, tocar-lhe na cabeça, apaziguá-la. Nos olhos procurei reconhecer algo que compreendesse, algo antigo, mas nada vi senão o negrume que não entendi. Tinha de confiar nela. Queria mesmo tocar-lhe, por isso olhei-a bem. Ela acalmou-se. Os olhos, eu já não sabia se eram os mesmos de há instantes. Quase lhe toquei.
Mas não pude. Recolhi a mão, levantei-me a pensar que era tarde e que o dia podia ter sido bem melhor.

25 setembro 2006

Grito opaco (1)


Aproximei-me porque ouvi latir ao longe. Quando cheguei, havia um grupo de pessoas em redor dela, presa a uma árvore por uma trela como se fosse um bicho ruim. Ladrava, ladrava, e a corrida com que perseguia todos em volta de si cingia-a em volta do tronco, encurtando-lhe os passos. Do fundo das goelas, com uma raiva maior que ela, bradava a bicha como se guardasse as portas do inferno. Os latidos ecoavam-me no cérebro como se lá tivessem nascido.
Que tem ela? perguntei. Não sabiam. Tinham tentado chegar perto, para ver, mas não deixava. Os bons e os maus eram mantidos à distância. Músculos tensos, corpo oblíquo, oferecia-se voluntária a uma contenda cujas razões ninguém parecia conhecer.


Vendo um fulano ameaçá-la, perguntei se lhe tinham feito mal. Disseram-me que não lhes parecia. Ou talvez os miúdos, talvez nem isso.
Ali, em volta da bicha, as pessoas olhavam-na sem a ver, alheados e confusos nesta desordem de final de tarde. O dia apagava-se e pelas janelas dos prédios em redor adivinhava-se o reconforto de um odor a fritos que amanhã não comeríamos porque faz mal. O trabalho ficava para trás, na boca do metro, e uma brisa tirava-nos dos bolsos as mãos para compor o cabelo. A cadela, ali na praça, não tinha sentido.

29 agosto 2006

Ao desfazer as malas

Rob Gonsalves

19 julho 2006

Metade de um milagre


14 de Setembro de 1182. Pelas veredas do promontório do Sítio, em Nazaré, D. Fuas Roupinho entregava-se aos prazeres da caça lançando a galope o seu cavalo, no enlace de um veado que se escapava.

Por artes do demo (sempre ele), presa e predador alcançaram a orla do precipício. E a pressa que levavam era tal que não lhes permitia recuo possível.

O cavaleiro, que era crente e costumava genuflectir por ali perto aos pés da imagem de uma virgem que se acreditava ter sido talhada pelas mãos do próprio S. José, teve então o reflexo de se lembrar dela.

Nesse instante, saída de entre as nuvens, surge no céu a Senhora em holograma, assustando o animal que estaca, salvando-se assim cavalo e cavaleiro.



A pedra com a marca dos cascos gravada ainda lá está. Vi-a eu.

Confesso que gosto bastante desta lenda. Gosto até da sua beatice desbotada em que não acredito mas de que me entranho. Mas, acreditemos ou não nelas, há um perigo nestas histórias que é o de nos determos no que nos parece óbvio. Haverá milagre para uns, cascos ABS para outros. E se não fosse nem uma coisa nem outra?

No verão passado, também em Nazaré, quando me dispus a ilustrar um banal “que é isto?” que a Salomé (8 anos) me lançava ao ver um postal, contei-lhe a história, contente por ver que se interessava. No fim, voltei a mostrar-lhe a imagem. Ao que a miúda sentenciou: “Oh, mas o veado morreu.”

Conclusão: não há milagres… perfeitos.

________________________
(Para quem quiser saber mais: Milagre de Nossa Senhora de Nazaré
Para seguir a Senhora até ao Brasil: Basílica de Nazaré)