ILUSÕES - ÓPTIMAS

Da ILUSÃO à INTERVENÇÃO não vai um passe de mágica... é uma questão de blog.

22 maio 2006

“Está chover mil escudos!”

O pregão, que soava mais a “está chovele, miléscudos!”, ouvi-o eu à entrada de um Inverno destes, numa saída em que o metro jorra portugueses cinzentos para a Avenida da Liberdade. Recém-chegado a Lisboa até olhei para o céu, mas nada de notas de mil, só chuvinha.


Depois disso continuei a espreitar as nuvens. Choveram sapos, cobras e até estivemos bem perto de um dilúvio de bandeiras nacionais. Notas de mil é que não. Acabei por me convencer de que o vendedor me augurava simplesmente um bom regresso a Portugal.

Encontrei o país no mesmo canto, virado para o mar e sedento de sol. Esta é a verdade.

Todos os dias ouvimos na rádio os jornalistas examinarem o barómetro do trânsito e espreitarem as nuvens com a mesma religiosidade. Porque pode descer o Benfica e subir o preço da gasolina, agora se chove… "que tempo de treta" (isto, claro, codificado em fórmulas legais).

Parece que só os analistas mais perversos ficam felizes por reencontrarem a perspicácia toda: “Os portugueses estão descontentes porque a Selecção não ganha, a gasolina não baixa e a chuva não pára. O que não ajuda.” Pois não. E lá seguimos nós, encarneiradamente, para o trabalho. E se debaixo de um chapéu-de-chuva encontramos um colega, o “bom dia” muda-se em "tempo de caca, não?" Mais à frente, se nos perguntam como vamos indo, "olha pá, como o tempo."

Parece idiotice mas, gota a gota, insensivelmente, comentários destes e o eco que nós lhes damos, penetram-nos no espírito e encharcam-nos os dias. Não é chuva.

Nós comemos todos os dias muito por causa de um aborrecimento chamado chuva, que se fosse mais frequente fazia de nós uns irlandeses alatinados e que se o fosse menos seria tão desejada que a elegeríamos como moeda nacional (como no Botswana onde a pula significa chuva).

Sem entrar mais em considerações existencialistas, teológicas ou ecológicas, eu que até nem sou nada expansivo nem particularmente optimista, a mim choca-me este cuspir para o ar. Como se pode chamar um tempo de merda quando ele nos cai literalmente em cima? O que é que isso faz de nós?...

Pois é, teimamos em querer o sol na eira e a chuva fora de Portugal.

Seca? Incêndios? Inflação? Nós somos é uns intrépidos gauleses que nada temem a não ser que o céu lhes caia em cima.

Por isso digo, faça chuva ou faça sol, ficamos bem nesta nossa aldeia.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Bebi as tuas palavras como quem se delicia com pingos de chuva a cair no rosto. Adoro dançar à chuva!
Obrigada por recordar que os dias cinzentos podem ser tão especiais, ou mais, do que um dia azul; sobretudo se temos a sorte de ver um ou dois arco-íris.
Continua a publicar "spots" da tua autoria pois a tua escrita é de uma grande força poética interior.
Obrigado e até sempre.

24 maio, 2006 17:58  
Blogger Ilusões-Óptimas said...

Sandra ou Sandrinha, desculpa a minha distracção. Claro que hei-de voltar.

Quanto ao "anônimo", quer-me parecer que não é tão anónimo assim. Obrigado domadora de crocodilos, andas a deixar muitas pistas.

24 maio, 2006 23:05  
Blogger K'os said...

faça chuva ou sol
devemos abrir os horizontes e estar preparados para o que quer que seja
algo que não tem acontecido


:)


Nota: obrigada pela visita ao meu blog, gostei do que vi

25 maio, 2006 18:37  

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