À espera da canção

Hoje “comemoramos” a Revolução de Abril. Usualmente, o dia serve para acabar de distribuir as amêndoas da Páscoa, longe dos solilóquios políticos que proliferam um pouco por todo o lado. Frete por frete, fico-me pela versão radiofónica – é mais fiel àqueles dias a preto-e-branco.
Por onde ando, subindo a Rua 25 de Abril, por exemplo, tenho sempre uma certa dificuldade em imaginar-nos hoje capazes de nos movermos para depor uma tirania – se acreditássemos verdadeiramente que ela existisse. Mas habituámo-nos à estúpida ideia que quanto mais o mundo é colorido mais as coisas nos parecem pretas ou brancas. Chegaram os pixéis, foram-se as nuances. Pelo que não temos que comprometer um bronzeado só para ir votar nuns fulanos que também nem votam quando querem ir “à terra”. E não estamos sob o jugo de uma ditadura.
Por isso, só por exercício imaginativo penso que temos algumas razões para sair à rua. Por puro exercício imaginativo nos visualizo a percorrer a Avenida da Liberdade, punhos no ar, cravos, povo, polícia, vontades… fico à espera da canção.
Entretanto, vivo o meu dia com a vaga ideia de levar comigo um índio da Meia-Praia que, algures, ajudou a abrir uma porta de prisão.
Muito lhe agradeço.

2 Comments:
Obrigado António, a tua opinião conta.
grândola vila morena... terra da fraternidade...
apesar de não ter vivido no tempo da ditadura, muito agradeço a todos os que participaram na libertação de Portugal aos fascistas.
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